Como Zlipax perdeu um olho

Março 31, 2008
Esta é a história de Zlipax. Zlipax, the seagull-choker, como lhe chamavam os seus amigos mais próximos, havia sido criado numa tundra muito específica da Coreia do Sul, por uma avançadíssima comunidade de tigres de benguela que tinham substituído a vulgar procura por carne fresca por uma intensa e metódica actividade diária enquanto corretores da bolsa.
Zlipax crescera saudável, e, chegada à altura dos primeiros cios, depressa descobrira que aquele abocanhanço de jugular a que as pequenas tigres-fêmea carinhosamente ronronavam como “foreplay” não era exactamente aquilo que mais o fascinava; havia qualquer coisa de “turn-off” naquele cheiro a sangue contabilístico, uma espécie de esmegma mental mal dissimulado.
Os tigres também sabiam disso. A sorte é que se encontravam nas imediações da ásia metropolitana da China do Sul, e era da China do Sul que vinham os exemplos de emigração compulsiva a troco de uma gigantesca máquina de lavar dinheiro da máfia, uma espécie de neo-colonialismo, se assim o quisermos, substituindo as rotas das especiarias pelas rotas das lojas chinesas, muito menos dispendiosas que os tradicionais restaurantes e acima do pesado braço da ASAE. Anos de corretagem bolsista, notícias falsas de OPAs, compra e venda maciça de acções através de offshores e tudo o mais praticado pela comunidade de corretores-listrados tornava a ideia agora pertinente, e o inadaptado Zlipax o alvo ideal. Iria para longe, para a Europa, com dinheiro emprestado, para se tornar o pioneiro da expansão, contraindo uma dívida eterna para os seus ronronantes patronos.

E assim foi. Mas nada disso explicava como Zlipax perdera o olho.

Na verdade, não havia muito a dizer sobre o assunto. Vivendo numa comunidade onde todos tinham unhas maiores que o fémur do Manuel Alegre, seria de esperar que qualquer carinho ocasional de RAWRRRR ROARRHH ARGH, a sua mãe adoptiva, que todos tratavam por “Mimi“, fosse suficiente para a perda – ou, no mínimo, leve danificação – do seu globo ocular.Mas não. Ironicamente, após escapar ileso de uma experiência que durara 19 anos com alguns dos mais selvagens animais à face da terra – mas, simultaneamente, elegantes e refinados, muito embora tivessem peidos avassaladores, no pior sentido do termo – tinha sido na viagem de avião para Brejos de Azeitão, o seu novo destino, que perdera a vista direita: tudo acontecera quando a hospedeira lhe perguntara se queria um pouco mais de Nescafé (pub), e Zlipax, respondendo agradavelmente que “não” com um daqueles seus rugidos em tom de flirt, tivesse causado que o sósia do Dalai Lama que viajava a seu lado (só que versão Michelle Pfeiffer em stress pós-parto) entrasse num ataque epiléptico instantâneo – aparentemente, a coisa ia tendo disso, sempre que a lua cheia calhava às terças-feiras – o que, por sua vez, levou a que a hospedeira tivesse entrado em pânico e accionado o botão de ejecção, causando que Randolph Barnes, um simpático reformado que poupara dinheiro durante 44 anos para estar presente naquele avião, fosse lançado directa e imediatamente para a atmosfera (em conjunto com a sua bastante confortável cadeira, diga-se de passagem), antes ainda que conseguisse fazer chegar à boca a apetitosa piña colada que tinha pedido para si poucos minutos antes. Ao furar o tejadilho do avião, Randolph tinha passado directamente pelo compartimento onde um Mariachi colombiano fazia transportar 32 ocapis – um estudo de marketing, nas suas palavras, que anda tinha a ver com narcotráfico – um dos quais, aproveitando a abertura que agora o conduzia à liberdade, optara por galopar desenfreadamente pelo corredor do avião, parando mesmo ao lado de Zlipax. Isto causaria que o Mariachi se levantasse e dançasse como um louco, com uma pistola em cada mão, disparando um tiro para o ar a cada 15 segundos, e gritando algaraviadas irreconhecíveis num espanhol extremamente duvidoso, que tornava difícil saber concretamente a proveniência do estranho esbirro de poncho e sombrero. Ora, se havia coisa que este ocapi não gostava e não gostava mesmo, era do barulho de uma pistola. Mal se desferira o 14º tiro, e depois de ter urinado algo semelhante a um tsunami e guinchado de terror durante exactamente 27,3 minutos, o animal desferira um gigantesco coice no tabuleiro da hospedeira, causando que o Nescafé (pub) a ferver fosse entornado directamente em cima da cara de Zlipax, cozendo-lhe a retina, e causando o “handicap” que haveria de mudar por completo a sua vida.

Foi assim que Zlipax passou a usar uma pala na vista direita, e era assim que chegava a Brejos de Azeitão. A aterragem fora suave: o ocapi estava visivelmente mais calmo, e tomava nescafé, acompanhado pelo mariachi, no lugar onde antes se sentara Randolph Barnes; o sósia do Dalai Lama ajeitava compulsivamente as sobrancelhas, fazendo estranhos ruídos com a garganta, enquanto lia a “Casa Cláudia”, mas, fora isso, parecia ter de novo entrado na rotina. A hospedeira, por sua vez, não soltara uma única palavra desde que tudo aquilo aconteceu; em vez disso, sentara-se num lugarzinho lá à frente, de olhar francamente vago, barrando geleia de morango em pequenas torradinhas. Ao pensar em tudo isto, Zlipax tinha decidido que esta seria a última vez que viajava em low-cost, desse por onde desse.



À chegada, reparou num indivíduo com um gancho em vez de mão, onde estava espetado um papel com o seu nome: “Zlipax”. Olhou-lhe para a cara: também tinha uma pala. E um lenço na cabeça. Dirigiu-se até ele. “Não sabia que estavam à minha espera. Vens da parte da Mimi?”. “Não. Vem comigo”.
Aquela terra era nova para Zlipax; por precaução, decidira fazer o que lhe era pedido. Foi conduzido a um gigantesco barco com rodas, “atracado” no parque de estacionamento do aeroporto. Um polícia passava uma multa por mau estacionamento, colando-a com cuspo no casco, o que causou que o seu amigo pirata vociferasse alguns palavrões impronunciáveis e partisse, imediatamente, uma garrafa de cerveja, dirigindo-se impetuosamente para o agente. Zlipax impediu-o, dizendo-lhe para ter calma, pois toda aquela violência era um sinal de alguma frustração. Ao dizê-lo, o pirata fitou-o, com os olhos muito brilhantes: “Talvez sejas tu aquele por quem esperamos há tanto tempo”. Isto surpreendeu Zlipax, e pareceu ter-lhe dado coragem para perguntar: “como assim? quem és tu?”
Foi pelo caminho que Johnny Bluebeard, uma espécie de Orlando Bloom algo efeminado (passo a redundância), lhe explicou que era membro de um grupo muito restrito de homens, o “clube dos zarolhos”, e que o ia levar até lá: mas que deveria guardar o resto das suas perguntas para o Arqui-Grão Duque, pois somente ele tinha a sabedoria suficiente para as responder.
O Instituto Camões era um bizarro casebre, que ostentava um ar moderno ao mesmo tempo que passava a imagem de poder ruir a qualquer instante. Johnny dirigira-se imediatamente à porta de entrada, fazendo sinal a Birmander para que este o seguisse; no entanto, em vez de bater à porta, desatara num estranho sapateado, incitando Zlipax a fazer o mesmo. Este assentiu, e assim ficaram durante uma hora e um quarto, até um outro homem, também vestido de pirata, ter vindo abrir a porta. “Há quanto tempo estão aqui fora?”, perguntou. “Há uma hora e um quarto”, respondeu Zlipax, ofegante. “Ah! que chatice. Não me digas que deu ao Johnny para sapatear outra vez? ele às vezes faz isso, quando quer tocar à campainha. Dizem que sofre de uma dislexia comportamental qualquer, não sei agora o nome. Coitado”. Zlipax olhou para Johnny; “coitado” não era o termo que se aplicava, exactamente, pois a sua imaginação vagueava livremente através de uma série de instrumentos de terror, como é exemplo o dilatador anal utilizado pelo Pedro I, da Rússia. Por seu lado, Johnny percebera; devolveu-lhe um olhar envergonhado, mas não disse nada. E assim, os três homens entraram.
Foram conduzidos para uma sala forrada com imagens de Luís de Camões. Lá dentro, havia uma mesa, onde se sentavam vários homens, todos vestidos de pirata, e todos ostentando uma pala. À sua frente, de pé, estava um rapazinho que não tinha mais de 16 anos, agarrando nervosamente numa pequena folha de papel. Nisto, o rapaz começou a declamar:
Se as rosas fossem amarelas / eu seria um ocapi / como tu nunca te esfregas / eu vou-me esfregar em ti! / as sardinhas e os tubarões desdentados / que da acidental praia lusitóina” …
“Por amor de deus”, gritou o homem sentado no centro da mesa, com ar desiludido, mas resignado. “Levem-no! E desta vez, lavem bem a faca!”. O tal homem, reparou Zlipax, também estava vestido de pirata, mas era bastante mais elegante que os restantes; usava roupas de veludo vermelho, e a sua gola larga assemelhava-se às golas de shakespeare; no alto da cabeça, um chapéu parecido com um estômago de ovelha forrado a camurça deixava sair três largos penachos de cauda de pavão, dando ao indivíduo um ar distinto, é certo, todavia algo assustador. O rapaz gritava, enquanto era arrastado para fora da sala, por um tipo com um gancho numa mão e uma perna de pau. “Oh, as pessoas dramatizam muito, sabes? isto não doi assim tanto”, disse o pirata que arrastava o rapaz.
Zlipax estava confuso com tudo aquilo, mas antes que pudesse falar, o elegante pirata dirigiu-lhe a palavra: “Ah! Zlipax! Sê bem-vindo. Esperavamos-te há muito tempo”. Era a gota de água: “Mas porquê???”, perguntou Zlipax, um pouco transtornado, “e como sabem todos o meu nome?”
“Nós sabemos tudo, Zlipax”, continuou o pirata elegante. “Somos uma sociedade que segue homens que perderam uma das vistas, desde o início dos tempos. A partir do momento em que alguém compra uma pala, em qualquer parte do mundo, os nossos informadores recolhem todos os dados acerca dessa pessoa, e enviam-nos para nós. Aí, nós vamos ao encontro dessa pessoa, e trazemo-la para aqui. Foi o que aconteceu contigo. E nós acreditamos que tu podes ser o tal”.
“O tal quê?”, respondeu Zlipax. “Bem”, continuou o pirata, “a vida, para nós, zarolhos, não é fácil, sabias? queremos ser reconhecidos na sociedade como indivíduos valorosos, mas nenhum de nós parece conseguir. Mas acreditamos que o nosso Mui Amado Senhor, sua excelência, Camões, um dia regressará, e caminhará entre nós, encarnando em alguém que tenha perdido uma das vistas. E… sabes uma coisa, Zlipax? Achamos que podes ser tu”.
Antes que Zlipax pudesse retorquir, o pirata continuou: “Ah! sim. Porque somos todos piratas? Bem, nós não passámos o teste. Não há muita escolha para um zarolho, sabes? ou somos o camões ou tamos fodidos. Fomos forçados a oferecer uma mão e uma perna em sacrifício, e para sempre tornar-nos piratas”. E nisto, o pirata puxa um dos lados das calças para cima, exibindo a perna de pau. De facto, agora que reparava nisso, todos eles tinham uma pala, um gancho, um papagaio e uma perna de pau. ” Mas chega de perder tempo: senta-te aí, Zlipax. Declama lá qualquer coisinha para a gente”.
-> Gostei de ler sobre Zlipax, desejo saber muito mais
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Março 19, 2008

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